Conversa Objetiva: A religião na sociedade - Dalai Lama
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" Toda verdade passa por três estágios: Primeiro, é ridicularizada. 
Segundo, é violentamente rejeitada. 
Terceiro, é aceita como sendo auto-evidente."
Arthur Schopenhauer

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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A religião na sociedade - Dalai Lama



..................................Em complemento a algumas postagens anteriores que estimulam o pensamento sobre a "verdade absoluta" de cada ser, tomo a liberdade de emprestar alguns trechos escritos pelo Dalai Lama em seu livro "Uma ética para o novo milênio", no capítulo 15, cujo tema é O PAPEL DA RELIGIÃO NA SOCIEDADE MODERNA


 "Quanto mais alto voamos, menores parecemos
aos olhos daqueles que não sabem voar.
(Nietzsche)



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" É um triste fato da História a religião ter sido uma grande fonte de conflitos. Até hoje há gente sendo morta, comunidades sendo destruídas e sociedades inteiras desestabilizadas em conseqüência do ódio e do fanatismo religioso. Não é à toa que muitos questionam a posição da religião na sociedade humana. (...)  "


(...) Entretanto, antes de examinar o assunto em detalhes, talvez valha a pena analisar se a religião é de fato relevante para o mundo moderno. Muitas pessoas afirmam que não é. Tenho observado que a crença religiosa não é um pré-requisito nem para a conduta ética nem para a própria felicidade. Já disse também que, quer a pessoa pratique ou não uma religião, as qualidades espirituais de amor, compaixão, paciência, tolerância, generosidade, humildade e outras mais são indispensáveis. (...) "


(...) Também acredito que há um enorme benefício pessoal quando se pratica sinceramente uma religião. Pessoas que desenvolveram uma fé sólida, baseada na compreensão e aprofundada na prática diária, em geral lidam muito melhor com as adversidades do que as que não têm essa fé. Assim, estou convencido de que a religião tem um potencial imenso para ajudar a humanidade a ser melhor. Quando bem empregada, é um instrumento extremamente eficaz para estabelecer condições que favoreçam a felicidade humana. (...) "


(...) Como então conseguir a harmonia necessária para solucionar os conflitos religiosos? A resposta é a mesma que se dá para as Pessoas que querem aprender a Controlar suas reações aos pensamentos e emoções negativos e cultivar qualidades espirituais: desenvolver a capacidade de Compreensão. Primeiro, temos de identificar os fatores que a obstruem. Depois, encontrar os meios de superá-los. (...) "
      


(...) Talvez um dos fatores que mais obstruem a harmonia inter-religiosa seja a incapacidade de perceber o valor das tradições de fé dos outros. Até bem recentemente a comunicação entre as diferentes culturas, e mesmo entre as diferentes comunidades, era lenta ou inexistente. Por isso, a complacência para com outras tradições de fé não era necessariamente muito importante, exceto, é claro, quando membros de diferentes religiões viviam lado a lado. Mas essa atitude não é mais viável. No mundo de hoje, cada vez mais complexo e interdependente, somos obrigados a admitir a existência de outras culturas, grupos étnicos e decerto outros tipos de fé. Gostemos ou não, a maioria de nós convive diariamente com essa diversidade. Creio que a melhor maneira de chegar à compreensão mútua é através do diálogo com membros de outras tradições de fé. Vejo diversos caminhos para isso. São muito valiosas as reuniões com estudiosos nas quais os pontos em comum e, o que é mais importante, as divergências entre as diferentes religiões sejam explorados e examinados. Em outro plano, são muito úteis os contatos entre pessoas comuns que pratiquem religiões diferentes para trocar experiências e informações. Talvez seja essa a forma mais eficiente de conhecer as doutrinas dos outros. (...) "


(...)Além do mais, o exemplo oferecido pelos fundadores de cada uma das grandes religiões demonstra claramente a intenção de ajudar os semelhantes a encontrar a felicidade através do desenvolvimento dessas qualidades. Todos viveram suas vidas pessoais com grande simplicidade, tendo como traço distintivo de seu comportamento a disciplina ética e o amor por todos os semelhantes. Não viveram faustosamente como reis ou imperadores. Pelo contrário, aceitaram voluntariamente o sofrimento sem considerar as privações com a finalidade de beneficiar a humanidade inteira. Em seus ensinamentos, todos ressaltaram de modo especial a importância do amor, da compaixão e da renúncia aos desejos egoístas. E cada um deles exortou-nos a transformar nossos corações e mentes. Sem dúvida, quer tenhamos fé ou não, todos merecem a nossa admiração mais profunda. (...) "


(...) Para isso, contudo, é indispenável estarmos conscientes de que a prática religiosa implica muito mais do que apenas dizer "eu creio", ou, como no budismo, "eu me abrigo". Implica também muito mais do que apenas visitar templos, santuários ou igrejas. E estudar religião não traz grandes proveitos se o que se aprende não chega a penetrar no coração e se mantém somente no plano intelectual. Contar somente com a fé sem compreensão nem prática dos ensinamentos não é suficiente. (...) "


(...) Uma das coisas que Comprovam o valor da genuína prática religiosa é a constatação de que, além da ignorância, outro fator preponderante que contribui para a desarmonia religiosa é o relacionamento pouco saudável das pessoas com suas crenças. Em vez de aplicar os preceitos religiosos na vida pessoal, muitos têm a tendência de utilizá-los como apoio para atitudes autocentradas. A religião funciona como algo que se possui ou um rótulo que distingue a pessoa dos outros. Isto é seguramente uma distorção e um perigo. Neste caso, em vez de usar o néctar da religião para purificar os elementos que envenenam nossos corações e mentes, usamos estes e elementos negativos para envenenar o néctar da religião. (...) "

Dalai Lama & Dean Evenson

(...) Mas é preciso reconhecer que isso reflete outro problema, implícito em todas as religiões. Refiro-me ao fato de cada uma delas alegar ser a única religião "verdadeira". (...) "

      

(...) Em termos práticos, os praticantes devem procurar ao menos aceitar a legitimidade dos ensinamentos de outras religiões, mantendo ao mesmo tempo um compromisso irrestrito com a sua própria. No que toca à legitimidade das alegações de verdade meta física de uma determinada religião, isso é sem dúvida uma questão interna daquela religião. (...) "


(...) No meu caso, estou convencido de que o budismo me oferece a estrutura mais eficiente para apoiar meus esforços de desenvolvimento espiritual através do cultivo do amor e da compaixão. Ao mesmo tempo, tenho de admitir que enquanto o budismo representa o melhor caminho para mim - ou seja, condiz com meu caráter, meu temperamento, minhas inclinações e meus antecedentes culturais -, assim também deve ser o cristianismo para os cristãos. Para eles, o cristianismo é o melhor caminho. Não posso, portanto, basear-me em minha experiência pessoal para afirmar que o budismo é melhor para todos. (...) "


(...) As vezes penso na religião como um remédio para o espírito humano. Para julgarmos realmente a eficácia de um remédio, é necessário verificar se seu uso é conveniente para uma determinada pessoa em determinadas circunstâncias. Não adianta dizer que tal remédio é muito bom porque contém tais e tais ingredientes. Se eliminarmos da equação o paciente e o efeito do remédio naquela pessoa, este argumento não tem sentido. O que importa dizer que no caso daquele paciente em especial, com aquela doença em especial, aquele remédio é o mais eficaz. Acontece o mesmo com as diferentes tradições religiosas: podemos dizer que essa é a mais conveniente para aquela determinada pessoa. Não adianta lançar mão da filosofia ou da metafísica para argumentar que uma religião é melhor do que outra. O importante é, seguramente, a sua eficiência para cada pessoa. (...) "


(...) para um único indivíduo isoladamente só pode haver de fato uma verdade e uma religião. Entretanto, do ponto de vista da sociedade em geral, precisamos aceitar o conceito de "muitas verdades, muitas religiões". Continuando com a nossa analogia médica, para aquele paciente determinado o remédio adequado é de fato o único remédio. Mas isso não significa que não existam outros remédios adequados a outros pacientes. (...) "

        Budismo

(...) Em meu modo de pensar, a diversidade que existe entre as várias tradições religiosas é extremamente enriquecedora. Por isso, não é difícil afirmar que, em princípio, todas as religiões são iguais. Todas são iguais quando salientam que o amor e a compaixão são indispensáveis dentro do contexto da disciplina ética. Mas afirmar isto não quer dizer que todas são essencialmente uma coisa só. As compreensões contraditórias dos conceitos de criação e ausência de início formuladas pelo budismo, pelo cristianismo e pelo hinduísmo, por exemplo, revelam que teremos de nos separar quando entrarmos no terreno da metafísica, apesar das muitas similaridades reais que sem dúvida existem. (...)  "


(...) Essas contradições podem não ser muito importantes nos estágios iniciais da prática religiosa, mas, à medida que avançamos no caminho de uma tradição religiosa, somos obrigados a reconhecer as diferenças fundamentais quando chegamos a determinados pontos. Por exemplo, o conceito de renascimento no budismo e em diversas outras antigas crenças indianas pode ser incompatível com a idéia cristã de salvação. Isso não precisa ser motivo de desânimo, porém. Dentro do próprio budismo existem pontos de vista diametralmente opostos no que se refere à metafísica. No mínimo, toda essa diversidade nos mostra que temos à escolha diferentes estruturas onde situar a disciplina ética e o desenvolvimento de valores espirituais. Esta é a razão por que não defendo uma super-religião ou uma nova religião mundial. Seriam perdidas as características únicas das diferentes tradições de fé. (...)  "


(...) A visão verdadeiramente pluralista da religião que um parlamento como este proporcionaria seria, a meu ver, de grande ajuda. Impediria os extremos do fanatismo religioso e, simultaneamente, a insistência em sincretismos desnecessários. Ligada à questão da harmonia inter-religiosa, creio que devo dizer alguma coisa sobre conversão religiosa. Este é um assunto que precisa ser tratado com extrema seriedade. É fundamental ter consciência de que o fato de se converter a alguma religião por si só não torna uma pessoa melhor, ou seja, mais disciplinada, mais compassiva ou de coração mais aberto. É muito mais proveitoso a pessoa concentrar-se em sua transformação espiritual através da prática da contenção, da virtude e da compaixão. (...) "


(...) Para alguns, os conceitos de renascimento e karma parecerão mais eficientes para estimular a aspiração de desenvolver o amor e a compaixão com maior responsabilidade. Para outros, o conceito de um criador transcendente e amoroso parecerá ainda melhor. Nessas circunstâncias, é imprescindível que essas pessoas se questionem repetidamente: "Estou atraído por essa outra religião pelas razões certas? Não seriam apenas os aspectos culturais e rituais que me seduzem? Ou seriam os ensinamentos fundamentais? Será que estou achando que, se me converter, a nova religião será menos exigente do que minha religião atual?" (...) "

              

(...) O ponto que se deve ter sempre em mente é que, em princípio, o objetivo da religião como um todo é tomar mais fácil o exercício do amor, da compaixão, da paciência, da tolerância, da humildade, da capacidade de perdão e de todas as outras qualidades espirituais. Se não lhes dermos importância, se deixarmos de praticá-las em nossa  vida diária, mudar de religião ou permanecer na nossa - ainda que sejamos crentes fervorosos - não valerá de nada. Seria fazer o mesmo que o doente grave que apenas lê tratados sobre sua doença, mas deixa de seguir o tratamento prescrito. Além do mais, se nós, que praticamos uma religião, não somos compassivos e disciplinados, como esperar que os outros o sejam?   (...)"


(...) Se quisermos estabelecer uma verdadeira harmonia nascida do respeito e da compreensão mútuos, a religião tem um enorme potencial para falar com autoridade sobre questões morais de vital importância como paz e desarmamento, justiça social e política, meio ambiente e muitas outras que afetam toda a humanidade. Enquanto não pusermos em prat1ca nossos próprios ensinamentos espirituais, nunca seremos levados a sério. E isso significa, entre outras coisas, dar um bom exemplo desenvolvendo relações harmoniosas com outras tradições de fé. "






Trechos retirados de:

................................Tenzin Gyatso, o décimo quarto Dalai Lama do Tibet.
................................Sua Santidade, o Dalai Lama. UMA ÉTICA PARA O NOVO MILÊNIO. 
................................1a Ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2006, 176p.












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3 comentários:

  1. O Dalai Lama tem e sempre teve belas e comedidas palavras, pena que a SOCIEDADE no Tibet não era a imagem dessas palavras. Como eu nunca tinha visto o "outro" lado, a não ser o dos Lamas, realmente não fiquei satisfeito em ver, mas a vida é um eterno aprendisado.
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